Carta ao primeiro amor

 Carta ao primeiro amor

Oi, querido! Como vai? Espero que bem.
Se recebeu essa carta ainda na nossa juventude é porque voltamos a nos falar ou eu morri. Só morrendo pra te falar tudo que venho guardando por anos. Então, provavelmente estou morta.
Desculpa… você sabe como tenho o humor um tanto peculiar. Calma, eu só não sei como começar a te escrever e de tudo que já consegui colocar no papel, essa carta está sendo, de longe, a mais difícil. Vamos por partes, ok?

Primeiramente, você deve estar lendo tudo isso e pensando ” Mas por quê?”. Por que raios eu te escreveria depois de tanto tempo? Posso começar falando que és — respira fundo — o meu primeiro amor.
Sei que não é a mesma coisa de falar olho no olho, mas só de pensar em ver você lendo tudo isso, fico ainda mais nervosa. Sim, estou muito nervosa.
Já é possível, enquanto você ler, te imaginar com os braços cruzados, com aquela cara de ” Estou ouvindo, continue…” e com as bochechas meio avermelhadas. O que quero saber é: você ainda fica vermelho quando fica estressado ou envergonhado? Era ótimo te ver assim.
E agora que já falei a principal coisa, deve estar se perguntando se era apenas isso que eu queria dizer. Não, não era. Hoje, preciso te contar coisas que jamais saíram da minha boca, mas que são necessárias serem ditas.
     

Nunca te falei o quanto te acho charmoso com toda essa altura e os cabelos perfeitamente em ordem. Era de chamar atenção. Eu já tinha notado o quanto as meninas te olhavam; dessas, eu nunca senti ciúmes, acredita? Logo eu, a rainha do ciúme, nunca senti dessas que tentavam chamar tua atenção. Mas era só falar em uma certa amiga, que eu ficava enfurecida. Ela ainda mora ao lado da tua casa? Verdade seja dita, era só falar o nome dela que eu sorria e planejava algum plano maquiavélico. Fique sabendo que foi você que incitou o meu lado malvado. Aposto que deu a maior gargalhada agora, como és previsível. E como eu era boba.
   

 Outra coisa que nunca te falei, foi como eu sempre babei ao ver a forma que você tratava tua mãe e cuidava da tua irmã. E eu morria de orgulho ao falar disso com a minha mãe. Você tinha duas fãs. Ela sempre me mandou observar a forma que os homens tratavam as mulheres, principalmente a mãe. Que boa escolha eu fiz, acertei em cheio.
     

Nunca te disse o quanto tu tinha o pior gosto musical da face da terra e sorte tua que tinha a mim, para te apresentar as coisas boas. Por falar em música, você ainda tem aquele CD do Red Hot Chili Peppers, que eu te dei? Você já ouviu e pensou em mim? Espero que sim… Porque sempre que escuto, é teu rosto que aparece. Que ótima associação. Então, espero que tenha guardado com carinho, porque foi gratificante ver teus olhinhos brilhando ao ganhá-lo de presente.
   

  Estou te escrevendo tudo isso porque aprendi  que guardar esse tipo de informação não é nada justo. Sei que o tempo de ter dito tudo, já passou. Mas ainda acho que dizer o que sentimos, pode mudar a nossa forma de enxergar as coisas. E mesmo que não estejamos juntos, te contar que foste o meu primeiro amor, é preciso. Aprendi muito com isso e te agradeço.
Você não sabe o quanto tudo foi intenso e novo. Estávamos numa época de descobertas e, qualquer novidade, chegava com tamanha intensidade.
O toque inofensivo, o beijo dado com um pouco de malícia, os primeiros gemidos quando nem sabíamos o que era um gemido, o ciúme bobo, as briguinhas, TUDO!


Tudo fez parte de uma experiência que sempre guardaremos e, mesmo essas descobertas sendo maravilhosas, estávamos fadados a dar errado. Éramos imaturos, cabeças duras, donos da razão, orgulhosos e um monte de adjetivo que, espero, tenhamos mudado com o tempo. Espero que os nossos erros tenham valido a pena para nos levar a um lugar melhor. Espero que você tenha se tornado uma pessoa mais paciente e que fala tudo o que pensa; que tenha feito planos depois que o ensino médio acabou e vê que o mundo é grande demais para ficar preso em um só lugar e que nascemos para viver!
     

Não sei se eu fui o teu primeiro amor, eu fui? Tenha certeza que você foi o meu. E por causa disso, eu nunca poderei te odiar. Apesar das mágoas e dos choros em silêncio, eu nunca vou te odiar. Como odiar o cara que me aceitou da forma que eu era? Como odiar o cara que me deixava ruborizada apenas com um olhar? Como odiar o cara que me ajudou a ter o meu primeiro gemido? Como odiar o cara que aceitava o meu amor por personagens de anime?
E depois de tudo que passamos, eu pensei que nunca mais teria forças para te olhar nos olhos. Mas hoje, não me importaria de sair para tomar um café — sim, ainda amo café — e conversar sobre como éramos dois idiotas. Porque não podemos esquecer que, antes de sermos namorados, fomos ótimos amigos. E o tempo contigo, sempre passou rápido demais.      


Então é isso… Você foi o meu primeiro amor e te agradeço por isso. Obrigada também, pelos milhares de filmes assistidos naquela beliche apertada, aprendi muito com eles. Obrigada por me fazer rir como uma menina e por me ver como uma mulher. Obrigada por ter me amado.
Eu sei que um dia você voltará a se apaixonar, eu torço por isso! Espero que seja tão arrebatador como foi lá atrás. Que você cuide dela, como você cuidava da minha eterna cunhada. Que você sempre a incentive e que a escute, quando ela assim quiser fazer. Talvez, ela seja mais uma medrosa que precisa do teu apoio. Que você diga que a ama, tenho certeza que ela merecerá cada jura de amor.
Querido primeiro amor, eu espero que você seja feliz. E aonde quer que você esteja, saiba que sempre te amarei. Você foi o meu primeiro amor e será eterno.

Autora: Johany Medeiros
Graduanda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE; Escritora por paixão; Degustadora de vinho barato e de café forte.

Utopia

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6 Comments

  • ah sempre legal ter essas lembranças do nosso primeiro amor né; super legal vc compartilhar aqui com a gente

  • Hahaha meu primeiro amor eu vejo todo ano eleitoral, ele vota na minha mesa de trabalho. Mas não chegamos a ficar 🙁

    • E que tal falar com ele? Chamá-lo para sair? Vai que surge daí uma oportunidade massa de ficarem! hahaha

  • eu chorei com esse texto… chorei porque estou numa fase dificil em que eu queria mesmo me divorciar, mas vou seguir com ele. queria sentir amor de novo. amor nao, paixão…
    desculpa o desabafo, parabens pelo post

    • Oi, Milca! Muito obrigada pelo o elogio. E espero que você esteja bem. Qualquer coisa, pode me procurar.
      Um xêro!

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