[CONTO] AGUDA – Filipo Brazilliano

 [CONTO] AGUDA – Filipo Brazilliano

Eu venerava Kito Aguiar. Eu o amava como um santo do punk desde que seus riffs envolventes invadiram a rádio local e fizeram meus tímpanos tremerem, mas isso foi antes de sua música suscitar o meu ódio quando o canalha seduziu a minha mãe.
— Então, cara de fuinha! Se liga, acho que estou com algumas coisas que ela gostaria que fossem suas — disse, com aquela voz lesada que fazia meu rosto inflamar. — Que horas pode passar por aqui para pegar?
O lugar não ficava longe, mas mesmo assim era um bairro completamente diferente, e eu não estava acostumado a me guiar por ali. Desde que meu pai me dera o carro eu estive tentando evitar atravessar aquela área por motivos de “tenho amor a vida.” 20 minutos circulando sem encontrar o endereço já foram o suficiente para eu achar que, jamais encontraria o galpão para onde minha mãe fugiu com o roqueiro adolescente e sua banda de virjões. Nem acredito que os ouvia na ânsia de conjurar a rebeldia que não daria as caras em mim, e abafar as constantes discussões promovidas pelos meus pais. Tenho certeza que a faixa “Ninguém solta a mãe de ninguém” foi um agradecimento velado de Kito por eu ter juntado o casal de desordeiros.
Eu não tive a menor chance de crescer como um jovem normal que se rebela contra o mundo, aborrece os adultos caretas e baunilhas, eu sequer pude sair para bagunçar a cidade, não, vadiar estava fora de cogitação para mim, mas não estava para a senhora Alayde Mascaranhas. Não sei se ela sempre foi dissimulada ou só queria chamar atenção. Desprezar o amor da família para viver no meio de delinquentes fumando qualquer lixo era a pior estratégia para ganhar biscoito, mas foi isso que ela fez até que…
— Milquias, eu não sei como dizer isso, mas sua mãe… ela sofreu um infarto agudo do miocárdio. Alayde, sua mãe, não vai mais voltar pra gente, é definitivo, filho…
A angustia temperava as palavras de meu pai. Depois de tantos anos tentando reconquista-la ao mesmo tempo que praguejava seu nome, ele ainda não tinha superado a mulher perturbada que o destruiu de dentro para fora. Pobre homem, nunca mais se recuperou do baque. Então, eu o abracei enquanto soluçava como uma criança e dei tapinhas em suas costas.
— Tá tudo bem, pai. Não foi sua culpa.
Ela não tinha coração. Tive vontade de dizer, não só essa vez, mas todas às vezes que ele enchia a cara até dormir sentado no vaso sanitário. Ainda bem que eu não disse, pois, aparentemente ela tinha coração sim.
Enfim, as ruas da vila eram todas iguais; sem sinalizações, mal iluminadas e abrigando um número considerável de sujeitos da pior estirpe, mas as paredes grafitadas com a logo da extinta banda Rosa Punk indicaram meu destino.
— Você nunca colou aqui, foi difícil de encontrar a garagem, fuinha?
— Foi, parece que vandalizaram as placas com os nomes das ruas.
Mea-culpa — Kito debochou, encurvado sob um frigobar e pegou duas garrafas de cerveja de qualidade duvidosa — bebe?
Nada que tenha na sua geladeira-anã, quis dizer.
— Estou dirigindo, então, se pudermos ir de uma vez com isso.
— Fuinha, eu sei que temos nossas diferenças…
— É, temos todas as diferenças!
— Eu tô ligado, ok? Também tive uma mãe, sabia? — Bebericou, com os olhos marejados, eu continuei esperando que suas palavras fizessem algum sentido depois do gole.
— Achei que tivesse sido cuspido para fora de um OVNI.
Ele engasgou, gargalhando.
— Aí está o selvagem senso de humor que herdou da Alay — estendeu a garrafa de cerveja me oferecendo. — Será que podemos dar uma trégua… por ela?
— Kito, só me dá de uma vez aquilo que ela deixou para mim e eu vou embora. Não quero perder mais tempo.
Ele se levantou e coçou as tatuagens que cobriam o braço. Eram tantas figuras que eu nem ousava decifrar aquele emaranhado de desenhos.
— Estão no ninho. Vamos subir?
Se eu tivesse alguma escolha não seria seguir os passos molem-molens de Kito até o quarto onde minha mãe… dormia. Que nojo! Assim que saísse daquele lugar sujo precisaria gastar um bom tempo me desinfetando na banheira. Não pude deixar de notar agulhas espalhadas pelos cômodos do primeiro andar. Aquilo me fez pensar que… eu não queria, mas agora, além de sentir o cheio de sexo e suor eu criei a imagem de dona Alayde se picando, Droga! Ela não
baixaria tanto o nível, baixaria?
Uma caixa de papelão fora arremessada sobre a cama de lençóis vermelhos.
Estiquei minha mão para levantar o pano que cobria o conteúdo, enquanto Kito batia seus diversos bolsos da calça jeans procurando alguma coisa.
— Vinis?
— Não, moleque, são tesouros! Como uma boa corsária de água doce, Alay sabia esconder bem os seus tesouros, e também escondia os talentos. Sabia que esse disco dourado contém uma música composta e interpretada por ela mesma?
Não sabia. Depois que minha mãe me abandonou eu nunca quis sequer imaginar o que ela estaria fazendo. Egoísmo? Orgulho? Dona Alayde se tornou a groupie mais falada da cidade, e eu deveria fingir que estava tudo bem? Não estava tudo bem. Uma família se desfez da noite para o dia só para que ela pudesse desfrutar de prazeres carnais sem responsabilidade. Não pude fingir cinismo.
— Pena que não vou ouvir nada disso. Não tenho vitrola, sabe? Acho que ninguém no mundo mais tem.
— Am… eu tenho. Sua mãe adorava essas coisas vintage. Só gravamos por causa dela. Quer ouvir?
— Fica para a próxima, tá? Ainda tenho coisas para fazer, lugares para ir.
Sua empolgação desmanchou no mesmo instante. Ele me acompanhou até até a calçada e eu quase esqueci que o odiava. Eu odiava Kito Aguiar desde os meus 16 anos e não consigo imaginar minha vida sem odiar aquele protótipo de coisa-nenhuma. Me arrependo amargamente do dia em que aumentei o som dos auto-falantes do carro do meu pai na tentativa de que, o solo da guitarra uivante de Kito fizesse meus pais pararem de se magoarem, porém um breve acidente musical de ironia dramática acabei causando a separação deles. Como eu queria poder voltar no tempo e ter arrancado com minhas próprias mãos o rádio daquele carro, que agora se encontrava depenado em frente a casa de
Kito com a janela quebrada e sem as duas rodas traseiras.
— É esse bairro marginal! Como minha mãe conseguia morar nesse buraco?! Bando de ratazanas! Ratazanas!
Kito se ofereceu para chamar um Uber, o qual aceitei contrariado. Nunca tínhamos ficado tanto tempo a sós no mesmo espaço antes. Jamais quis o conhecer pessoalmente ou tê-lo como amigo. Mesmo tendo quase a mesma idade, Kito e eu tínhamos um abismo cultural e ideológico gritando por todos os lados num volume estridente. O cara vivia na imundice, e ainda arrastou minha mãe para esse esgoto. Sem falar que ele vivia reclamando do governo e de homens poderosos que lucravam em cima do pobre. Eu não entendia o que minha mãe tinha visto num sujeito tão tapado quanto ele.
— Alay tinha um agudo da hora, cara de fuinha.
O disco de vinil explodiu tocando uma balada punk acompanhada pela guitarra desplugada de Kito. Não sabia que ele tocava algo sem que parecesse estar blasfemando deus e invocando o diabo. A melodia soava limpa e cativante. Meus olhos foram convidados a se fecharem e sem saber bem o porquê eu deixei as pálpebras descansarem. De repente, como um cometa que entra de supetão no cenário espacial, a voz da minha mãe ascendeu roubando a cena.
— É Minha mãe?
É minha mãe! Alayde, a louca. Sua música tinha o poder de me quebrantar em cada verso. Eu comecei uma briga interna para me permitir gostar sem sentir culpa, mas era impossível ignorar todos os anos em que fingi que ela não existia.
Mordi os lábios me punindo por ter respondido mal para as pessoas preocupadas ou curiosas. “Minha mãe se foi”. E agora que minha mãe se fora de verdade como eu iria responder?
— Não é bonito?
Bonito era. Ela trazia emoção para a letra mais passiva-agressiva que já escutara. Senti o impulso de chorar, mas não choraria na frente de Kito se pudesse evitar, e evitei. Foi como se eu estivesse sendo desonesto com o momento, mesmo sabendo que não devia nada a ele, nem a minha mãe. Ela era adulta e responsável quando tomou a pior decisão possível estragando nossas vidas. Era por ela que eu deveria derramar lágrimas? O roqueiro não se importou com minha presença e choramingou finalmente encontrando o que tanto procurava em seus bolsos. Tirou um maço de cigarro e apontou para o toca-discos.
— Esse é pra você, Alay.
Ele despencou no sofá carmesim. Kito realmente gostava de vermelho, ou seria coisa da minha mãe? Tantas coisas que eu não sabia mais sobre ela. Dona Alayde era louca. Ela tinha o olhar de louca. Ela vivia louca nas noites em inferninhos acompanhando a extinta banda Rosa Punk de Kito Aguiar. Ela fumava, mas não tinha certeza se usava drogas mais pesadas. Meu pai a usava como exemplo quando eu chegava chapado tarde da noite. “Quer acabar como sua mãe?”, e virava outra garrafa entorpecendo seus sentidos tentando esquecer do que perdeu.
— Quem era você, mãe?
— Sabe, quando a Rosa Punk acabou, todo mundo dizia que ela ia me deixar, porque achavam que Alay não passava de uma groupie e groupies não ficam pro café da manhã, mas ela ficou. E tomamos mais café do que eu achei que tomaria — gargalhou tossindo fumaça. — Não esperava estar vivo nessa idade, porque 27 anos é a idade em que todos os gênios musicais morrem, mas Alay me mostrou que eu não era gênio porra nenhuma, entende? Ela me salvou e agora ela se foi.
A ponta do cigarro que ele fumava acendia em brasa iluminando seu semblante
melancólico, e de repente, eu não o odiava. Não odiava Kito Aguiar, porque entendi que ele perdeu alguém que amava, alguém que ele amava de verdade. E Isso me fez pensar… Quantos erros a pessoa que você ama precisa cometer para que ela deixe de ser importante? Eu era muito novo para saber controlar minhas emoções, mas talvez ter me afastado totalmente de minha mãe não fora a coisa mais sensata que fiz. Meu pai continuou a amando, mesmo não tendo superado, ele não a puniu por ter ido embora, ele se autoflagelou por tê-la perdido. E eu? Eu só fantasiei sua morte para que meu subconsciente se acostumasse não a chamar mais quando tivesse pesadelos e acordasse assustado.
— Você estava com ela quando ela morreu?
— Estava.
— E como foi?
— Feio.
Olhando com mais atenção através dos cabelos escorridos sob o rosto de Kito percebi as linhas de expressão em sua testa ganharem um pesar, como se estivesse revivendo os últimos momentos com ela repetidas, e repetidas vezes. Ouvia trovoadas vindas de dentro de sua cabeça e me sensibilizei.
— Ela sofreu, Kito?
— Foi infarto, essa merda dói mais que um chute no saco.
Me sentei ao seu lado e ficamos revezando o cigarro encardido que fora o carrasco de minha mãe. Espremi aquele pedaço de fumo em meus dedos me vingando por ele ter arrancado o último folego de quem me pariu. Engasguei. Tossi, mas traguei o desgraçado responsável pela última nota que as cordas vocais de dona Alayde foram capazes de emitir, e segundo Kito Aguiar, fora a nota mais aguda que ele já ouviu.

SOBRE O AUTOR:
Filipo Brazilliano é um contador de histórias verborrágicas e melodramáticas, um rabiscador de parágrafos obcecado por entender os entrelaços da vida, do amor e da fé. Dente de Leite é seu thriller psicologico mais recente no wattpad; Para contata-lo @filipobrazilliano em todas as redes sociais.

Utopia

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