Fragmentado

 Fragmentado

Imagem: Obra Melancolia – Edvard Munch

Quão mais fragmentado meu coração precisa estar para que, enfim perceba que sou só um
poeta penitente sofrendo lapsos de memória, assombrado pelo relance dos seus olhares
plenos tão cheios de afeto que, quase não me deixava sentir solidão. Agora mesmo me
sinto tão só quanto o beija-flor que desliza sobre os ventos em rumo doutros cheiros. Qual
aroma exala de quem tem alguém com quem compartilhar o mais profundo dos
pensamentos? Não temos mais o privilégio da confidencia, mas eu também não tenho mais
ninguém em quem confiar, não faz mal confessar se nem possuo a garantia de uma
resposta malcriada: Estou doente. Só me restou as lembranças de uma vida passada que
nem sei se vivi, e a fissura no peito revelando a doença encarnada em mim.

A Alma quando é ferida sangra, mas nunca morre, faz anos que eu espero sentado numa
sala pra ver a cara gorda da Morte, mas ela anda devagar por conta de sua obesidade
mórbida. Viver é o que me desgasta, mas viver sem a amizade que tanto me balança
quanto sustém, de longe é o castigo da inquisição a um legitimo herege. Eu não tenho
condições de produzir novas lembranças para substituir os antigos espectros que me
aparecem quando passeio pelo bairro. Minhas recordações são traumas e marcas cavadas
até a raiz, porém de tudo quanto lembro, por mais doloroso que seja o esforço que faço, a
melhor coisa que me sobrevém, e me varre como uma onda de alivio, é você. E eu sei que
muito embora pense o contrário, era eu quem de você mais precisava, porque viver fora do
âmago de sua companhia é o tormento pós-morte que nego como um incrédulo, mas que
até parte de minha natureza niilista admite: “Não aguento existir no inferno que me
encontro, não sem o refrigério das palavras que esguicham da sua boca”

Imagem: Obra Melancolia do Edvard Munch

Autor: Filipo Brazilliano

Filipo é um contador de histórias verborrágicas e melodramáticas, um rabiscador de parágrafos obcecado por entender os entrelaços da vida, do amor e da fé. Dente de Leite é seu thriller psicologico mais recente no wattpad;
Para contata-lo @filipobrazilliano em todas as redes sociais.

Utopia

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2 Comments

  • Olá!
    Parabéns pelo texto!
    Sabe, em algum momento da vida todos já nos sentimos assim. Talvez ainda sintamos uma agonia parecida, uma solidão. E sim, sempre há algo ou alguém que nos tira desse estado d’alma; senão permanentemente, pelo menos por tempo suficiente para respirar e voltar a submergir.
    Abraços!

    • Só dissestes verdades, Lorena.

      Obrigado pela leitura e por se identificar com minha melancolia.

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