Não conte para a mamãe – Memórias de uma infância perdida

 Não conte para a mamãe – Memórias de uma infância perdida

Em livro autobiográfico, Toni Maguire narra como foi violentada pelo próprio pai, por quase 10 anos.

O livro Não Conte Para a Mamãe começa com a Toni adulta no hospital acompanhando a mãe que está em estágio terminal. Intercalando entre o passado e o futuro, conseguimos entender o porquê ela não gosta de ser chamada mais de Antoinette. Enquanto está com a mãe, todo o passado vêm a tona e é onde descobrimos o que aconteceu com ela, por quase 10 anos.

A história se passa nos anos 50, na Inglaterra e na Irlanda do Norte e começamos a conhecer a família dela pelo seu ponto de vista. Enquanto o pai estava na guerra, ela e a mãe eram amigas inseparáveis e pareciam viver uma vida perfeita na Inglaterra. Quando o pai volta, decide-se mudar para uma cidadezinha no interior da Irlanda do Norte, com o argumento de querer ficar perto da família e que lá, teriam melhores oportunidades.
No dia em que chegaram a nova casa, depois dos festejos com os parentes paternos, Antoinette começou a notar peculiaridades na personalidade do pai e isso a assustava. Sempre tentava desvendar se aquele homem que ela via naquele momento, era o homem bom ou o homem malvado. Aos seis anos, a partir de um beijo na boca, os abusos começaram.

Não conte para a mamãe — disse ele, dando-me uma leve sacudida. — Isso é um segredo nosso, Antoinette, você ouviu?
— Está bem, papai — respondi — Não vou contar.

Apesar da ameaça do pai, ela correu para os braços da mãe, contou-lhe o que aconteceu, esperando que ela mandasse-o parar. Ela não mandou. Disse para a filha nunca mais tocar naquele assunto. Aos sete, o pai a estuprou. Os estupros se tornaram rotineiros e sempre lembrava a filha de não contar para a mamãe, se ela contasse, a mãe não acreditaria e pararia de amá-la.
Com o retorno do pai, a mãe de Antoinette ficou cada vez mais distante, fazendo todos os gostos do marido e adulta, Toni chegou a conclusão que a mãe sabia de tudo e não fazia nada para ajudá-la — dando a entender, que mãe morria de ciúmes da filha.

Aos 14, ela engravidou e foi forçada a abortar. Teve certeza, nesse momento em que a mãe “descobriu” o que acontecia, que isso só aumentou a distância entre elas — dando a entender que a mãe morria de ciúmes da filha, como se fosse uma competição. Depois que o pai de Toni foi preso, a filha pensou que agora teria uma vida normal com a mãe, mas nunca voltaram a ser como eram e, ainda por cima, a mãe de Toni esperava pelo o marido — e amou-o até os últimos dias de vida.

A cada página temos conhecimento de todos os sofrimentos que a Toni passou. Durante os abusos e violência, Toni foi ficando cada vez mais reclusa, chegando a conclusão que nunca conheceria a felicidade. Depois que os estupros vieram à tona e o pai foi preso, os sofrimentos não diminuíram em nada: a sociedade a culpava, a família do pai não a queria por perto, foi expulsa da escola, tentou se matar. Mesmo quando se mudaram e Toni largou os estudos para trabalhar, criando um perfil profissional fake, não teve sossego. Quando descobriam quem ela era, a expulsava. Ninguém conseguia entender como ela passou tanto tempo sem falar nada, então, concluíam, que ela seduziu o pai e que ela gostava do que acontecia.

O livro é bastante denso, não porque a narrativa é difícil, mas sim porque é revoltante saber de tudo que acontecia com ela e ainda era vista como culpada. Mesmo sendo um livro muito bom, que faz refletir e e nos deixar atentos aos pedidos silenciosos por socorro das crianças, não é um livro que eu recomendo pra todo mundo. A quantidade de detalhes que a autora nos mostra, deixava a leitura completamente angustiante e as lágrimas simplesmente vinham à tona e, na maioria das vezes, era preciso largar tudo e sair para respirar. Caso decida ler, saiba que você nunca estará preparado para o que será apresentado.

Capa do Livro

Título original: Don’t Tell Mummy
Autora: Toni Maguire
Editora: Bertrand Brasil Ano: 2012 Páginas: 308
ISBN-13: 9788528615722
Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐


Olá, pessoas! Saibam que escrever essa resenha foi completamente difícil e acabei adiando ela por um tempo. Não consegui me prolongar como gostaria, mas espero que a resenha tenha sido esclarecedora. Tem vontade de ler o livro? Já leu? Não esquece me de contar nos comentários, quero muito saber a opinião de vocês. Abraços. 

Autora: Johany Medeiros
Graduanda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE; Escritora por paixão; Degustadora de vinho barato e de café forte.

Utopia

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6 Comments

  • Olá!
    Infelizmente em uma sociedade às vezes é mais fácil culpar a vítima do que admitir sua necessidade de ajuda. Admitir que um maníaco vivia no meio deles e que não perceberam o problema, que falharam.

    Abraços!

    • Oi, Lorena!
      Sim, isso se faz presente demais no cotidiano de algumas pessoas. Por isso é um livro bom para observar e perceber os pedidos de socorro.
      Abraços.

  • Esse é um livro que eu gostaria de ler, mas não sei se aguentaria ler ele, mesmo que eu goste desses livros que tacam a realidade na nossa cara e nos fazem sentir uma dor imensa a cada linha.
    E realmente é um inferno quando a gente vê essas atrocidades e a vitima é sempre a culpada, é muito revoltante.
    Adorei seu texto, acho que me sentiria do mesmo jeito!

    • Oi, Bianca!
      Mesmo sendo um livro pra lá de pesado, acho que a leitura é bem válida, sabe? Acho que nos faz abrir os olhos para algumas situações que nos cerca, que nos faz ficar atentos e cultivar empatia. Mesmo eu ficando muito triste com tudo, é um livro que eu gostei de mais (irônico?)
      Abraços.

  • Esse livro é absurdamente forte, principalmente por causa da mãe que continua amando o marido até o fim da vida, imagina isso para uma criança já me causa dor profunda, sei que lendo, será assim também.

    • Oi, Lilian!
      Isso foi uma das coisas que mais me deixou triste. Poxa, como continuar a ter uma visão boa de um homem assim, depois de tanta coisa ruim? Requer muita delicadeza pra discutir um tema desses, né?
      Abraços.

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