Recife Frio: uma reflexão cômica sobre como o clima influencia a cultura

 Recife Frio: uma reflexão cômica sobre como o clima influencia a cultura


Recife Frio é um curta-metragem brasileiro, escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho, renomado diretor, produtor, roteirista e crítico de cinema brasileiro. Ele também é reconhecido por outros dois filmes premiados no Brasil e no exterior: “O Som ao redor” e “Aquarius”. Ambos já foram incluídos na lista dos 10 melhores filmes do ano do jornal norte-americano The New York Times. Além disso, Kleber divide com Juliano Dornelles a produção do filme “Bacurau”, que teve sua estreia em 2019 e desde então foi premiado em diversos festivais de cinema, entre eles o Festival de Cannes e o Festival de Munique.

O curta Recife Frio foi lançado em 17 de dezembro de 2010 e é exibido na forma de um documentário narrado por um repórter espanhol sobre uma mudança climática em Recife, que, inexplicavelmente, passa a ser fria após a queda misteriosa de um meteoro no litoral da cidade. Isso gera mudanças no comportamento da população e em toda uma cultura que sempre viveu em clima quente.

Embora seja classificado como ficção científica, o curta pode muito bem ser classificado também como comédia. A descrição irônica das situações ocasionadas pela mudança climática carrega o filme de comicidade, característica que também é alimentada pela disparidade entre as peças de música clássica e as cenas do novo cotidiano comum da cidade em que as peças são a trilha sonora.

Uma observação bastante importante é o quão profunda é a narração das mudanças na cena cultural da cidade afetada pela mudança climática, o que traz uma reflexão para o quão as características geofísicas são importantes para a cultura de uma determinada região. Dessa forma, o filme explora as mudanças ocasionadas pelo novo clima em diversas vertentes como religião, artesanato, turismo e espaço urbano. Essa imersão na cultura da cidade ainda é enriquecida pela presença de personalidades populares no Recife, como a memorável jornalista Graça Araújo e a artista Lia de Itamaracá.

Além disso, não é porque o filme seja uma ficção científica que suas críticas sociais não sejam contundentes no mundo real. Entre essas críticas do filme, pode-se destacar a que é feita à classe alta da sociedade, que, em seus apartamentos, tem o quarto da empregada pequeno nos fundos da casa e às vezes em janelas, o que o filme diz ser um fantasma moderno da senzala e uma herança da escravidão. Outras críticas sociais interessantes são às feitas contra a especulação imobiliária sem controle, insegurança e espaço urbano caótico do Recife.

Vale destacar que, ainda que seja uma ficção científica, poucos são os efeitos especiais do filme. E, quando aparecem, não são de alta qualidade. Isso pode ser notado no efeito de vapor ao se falar em locais frios, perceptível na fala de vendedores no início do curta e quando Lia de Itamaracá canta no final. Entretanto, esse efeito parece cair como uma luva na comicidade do filme de tal forma que é capaz de gerar a dúvida de que sua baixa qualidade se deu realmente a uma deficiência técnica ou fora proposital.

Dessa forma, Kleber transforma o desejo de um Recife mais frio, frequente entre os que moram ou já visitaram a cidade, no cerne de um curta-metragem.

Título: Recife Frio
Dirigido por: Kleber Mendonça Filho
Ano: 2009
Duração: 24 minutos
Gênero: Comédia, Ficção científica
Sinopse: Um meteorito cai sobre Recife e a cidade torna-se fria, com baixas temperaturas. A região sofre com os efeitos desse acontecimento sobrenatural, e deixa de ser tropical para incluir até pinguins em sua fauna.


Autor: Gabriel Vila Nova

Compositor e Músico; Graduando em Comunicação Social na UFPE – Campus Agreste
Instagram: @gael_gvn

Utopia

Related post

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

pt_BRPortuguese
pt_BRPortuguese