[CONTO] Batata Frita com Sorvete – J. H. Medeiros

 [CONTO] Batata Frita com Sorvete – J. H. Medeiros

— Vamos sair? — Perguntou Alex, por mensagem.
Fazia semanas que um simples comentário nas redes sociais se transformou em conversas diárias que duravam horas. Quando acordava, Ariel já sorria com o bom dia, um tanto atrapalhado dele. Mesmo sem nunca se encontrarem pessoalmente, ela já o conhecia o suficiente para saber que ele ficava nervoso a cada vez que iniciava uma conversa. Dava para imaginá-lo roendo as unhas do outro lado ou checando o celular a cada 2 segundos, esperando vê o bom dia dela, mais seco da história “Bom dia para quem? Mal dormi, mano! A gente conversou até amanhecer e hoje, minha mãe fez questão de me acordar cedinho.”.
Ele sempre ria. De uma forma que não conseguia explicar, começou a gostar daquele humor peculiar, que só ela carregava. Mas hoje, ao acordar e ver a primeira e única mensagem que ele mandara, não sabia o que dizer. Saiu da cama, já com o mau humor estampado na cara. Saindo do quarto, passando pela a cozinha que estavam os pais, não conseguiu nem desejar bom dia a eles.
— Oi, Ariel! Dormiu com sua mãe?
— Ah, mãe! Não começa…
— Tão nova e já tão estressada. Isso vai te fazer mal. — Disse a mãe, tomando um gole de chá, enquanto o pai sorria e comia um dos pratos mais cheios que a filha já viu. Ignorou-os. Caminhou até o banheiro, para escovar os dentes e tomar um banho, e como a mente é complicada, não conseguia tirá-lo da cabeça. “Ok… ele é muito gente fina, consegue entender o meu humor doido, gosta das mesmas coisas que eu… mas por quê? O que ele quer? Sair apenas como amigos? Ai meu Deus! Porque eu tô complicando tanto? Que saco! “.
Não demorou para sair do banheiro, colocar uma roupa folgada e ir tomar café da manhã. Por um momento, queria encontrar os pais ainda na mesa, jogar conversa fora e parar de pensar no Alex. Mas não… Eles já tinham comido, saído de casa para as suas rotinas e a deixou sozinha, na solidão de uma casa pequena demais para suportar tudo o que estava sentindo. Precisava tomar um ar. Foi para a rua observar os poucos transeuntes que passavam por ali, mas o vento que batia em seu rosto a deixava mais calma. “ok, por que não?”, não tinha nada a perder, tinha?
Voltou para dentro, decidida a usar o momento de coragem e responder que sim!, iria aceitar sair com ele.
“ok, foi uma péssima ideia.” (08h05)
“deixa pra lá” (08h06)
“esquece o que falei, foi só um momento de loucura.”(08h06)
“podemos continuar a ser web amigos.” (08h15).
“sem problema” (08h15)
“Bom dia, Ariel.” (08h30)

— O quê? — No início, enquanto lia as mensagens, ficou brava. Soltando um ou dois palavrões, até cair na risada e perceber que ele estava tão nervoso quanto ela, ou pior, já que não obteve resposta. Soube, naquele momento, que era o certo a se fazer.

“Oi, Alex. Bom dia! Acabei ficando sem saber o que responder e fui me distrair um pouco, desculpa. 19h está bom pra você?”.
“Claro! Não espere muito para o primeiro encontro. Não sabia que aceitaria, mas pelo menos vamos rir disso no futuro.”. “Relaxa, menino… Já estou sentindo minha barriga doer de tanto que vamos rir disso, no futuro. Até às 19h.”.

Não esperou uma resposta. O coração batia rápido demais, as mãos suavam de uma maneira sobrenatural, as pernas perderam um pouco a força. “Então é um encontro…” pensou, sentando-se na cama, esperando a ficha cair e a coragem para se organizar, queria estar perfeita, mesmo disposta a mostrar as imperfeições.

O dia passou voando. Depois de passar a tarde cuidando dos cabelos cacheados, pintando a unha de preto, fazendo depilação, hidratação na pele, maquiagem e horas procurando a melhor roupa, nem notou que já estava atrasada.
— Ai meu Deus… — Pegou o celular com rapidez, vendo o lugar em que ele marcou, mandou um áudio dizendo que já estava chegando. Colocou uma roupa que nem pensou que usaria; um vestidinho solto, um All star e um casaquinho. Pegou uma bolsa pequena, enfiando de qualquer jeito o celular, batom e dinheiro.
Enquanto andava apressada pelas calçadas, agradecia por morar em cidade pequena. Por nenhum momento lembrou da ansiedade que a consumiu durante todo o dia, até vê-lo sentado a poucos metros dela.
Parou por um momento, admirando de longe ele balançar as pernas e não tirar o olho do celular. “Que gato!”, pensou admirada por ele ter caprichado tanto. Ou seria o olhar apaixonado dela? Não… de fato estava bonito. De calças jeans rasgadas, um casaco folgado, All star e os cabelos bagunçados que ela sempre gostou em silêncio, enquanto o stalkeava nas redes sociais, ele estava incrível! Até os piercings que sabiam que os pais iriam detestar, ela amou à primeira vista. E assim, tão perto, ela só queria curtir a noite com o cara que ela admirava tanto e a compreendia, a ansiedade sumira.
— Oi…
— Meu Deus, Ariel! Pensei que você não viesse mais! — Ele já estava de pé, abraçando-a com uma vontade que a surpreendeu ainda mais e ela retribuiu,  sentindo o cheiro do perfume dele, que até hoje é incomparável.
— Que bom que você não é um velho gordo que gosta de garotinhas bonitas.
— Sou melhor, né? — Falou de maneira exagerada, para fazê-la rir.
— Claro! Apesar de todos esses furos no rosto! Meus pais vão te odiar… — Gargalhou, imaginando a cara dos pais, ao vê-la com uma pessoa tão diferente. —… Eles iriam preferir o velho gordo, certeza.
— Essa doeu! — Tentou fazer drama, caindo na gargalhada junto com ela. E depois parou e a olhou fixamente. Não como um amigo olha uma amiga, mas como um homem olha uma mulher. — Mas por você, eu tiro todos.

Há muito tempo, ela não se sentia assim, tímida sem saber o que falar. Nunca teve um primeiro encontro, todos os outros queriam partir logo para a pegação, mas com ele não e adorava isso. Gostava da sensação de se sentir admirava como mulher decidida e apaixonada. Por um tempo, ficaram sentados no banco da praça mesmo. O papo fluía de uma maneira que nem eles conseguiriam explicar. m assunto se tornava dez e mais dez e mais dez. E riram de se acabar, quando na mesma noite, encontraram duas professoras que os olhavam intrigados, sabendo o que estava rolando ali.
— Já sei, vamos. — Disse Ariel, determinada.
— Pra onde?
— Eu estou prestes a te mostrar um dos meus piores defeitos.
— Mas logo agora? No primeiro encontro? — Ele riu, achando graça da forma que ela falava. — Quero ter certeza se você consegue aguentar ou vai me achar uma aberração como todos os outros.
— Ok… agora estou ficando com medo.
— Não, eu não vou te matar. — Sussurrou baixinho perto do rosto dele, depois deu as costas, saiu andando e falou alto. — Não hoje.
Ele a seguiu. Já que não iria morrer hoje, porque não a seguiria? Pararam na melhor lanchonete da cidade. Ele pediu coxinha com refrigerante, ela fez o pedido em segredo. Enquanto esperavam as comidas, o papo voltou a fluir. Nada de clima estranho, que muitos casais têm nos primeiros encontros. De brincadeiras à seriedade, eles conversaram sobre tudo.
— É, é complicado pra mim… Me machuquei muito da última vez, sabe? Minha ex me deixou na fossa.
— Eu também tô com medo, Alex. Mas a gente tem uma afinidade tão boa. Tu é idiota mas gosto de você.
— Sério mesmo?
— O que? Que te acho idiota ou que gosto de você?
— Já sabia que gostava de mim, olha pra isso. — Falou confiante, fazendo-a rir mais uma vez naquela noite. Ele não sabia, mas ganhava pontos a cada risada que conseguia tirar dela. — Mas me achar idiota? Aí já é demais…
— Só falei verdades, querido! Aceita que dói menos.
Quando ia retrucar o que ela falou, os pedidos chegaram. Só se deram conta que estavam famintos, quando viram as gostosuras na mesa.
— Obrigada.. — Agradeceu Ariel, ao atendente.
— O que é isso, menina? — Perguntou Alex, olhando para a comida dela.
Em sua frente, estava uma porção grande de batatas fritas e uma tigelinha de sorvete. Ela ria da cara que ele estava fazendo. E sem responder, afundou uma batata frita no sorvete de morango e colocou na boca.
— Essa é a melhor sobremesa da vida! Vai, experimenta.
— O que??
— Anda, Alex! Confia em mim…
— Ta, eu aceito que sou idiota. Mas e você, é o que?
— Uma pessoa com o paladar avançado. Mas você não está preparado para essa conversa.
Ambos riram, até que ele tomou coragem (não podia dar pra trás a essa hora) e experimentou a sobremesa mais estranha da vida.
— MANO!! Isso é muito bom. 
— Sério que você gostou?
— Claro! Por que nunca tentei isso antes?
— Eu avisei, né?
— Você é um gênio, garota!
Ariel voltou para casa, sentindo-se realizada. A cama a abraçava com carinho, enquanto ela olhava sorrindo para o teto. Mesmo simples, foi o encontro perfeito que engatou em um romance marcante. E hoje, para ela, essa é a melhor sobremesa da vida e uma de suas melhores memórias. Mesmo depois do fim.

Utopia

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